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Saúde · História

Por que a Peste Negra ainda existe? O que se sabe do caso na Rússia

A suspeita de peste na Sibéria mexeu com o mundo. A bactéria da Peste Negra nunca foi embora, mas hoje não vira mais pandemia. Explicamos por quê, e o que se sabe do caso de Irkutsk.

Por Que Será? Publicado em 8 de outubro de 2026 Dados apurados até 9 de outubro de 2026 7 min de leitura ✓ 13 fontes conferidas
Por que a Peste Negra ainda existe? O que se sabe do caso na Rússia

Prefere assistir? O vídeo completo está aqui (10 min)

Resposta rápida

Sim, a bactéria da Peste Negra (Yersinia pestis) existe hoje, em roedores selvagens e pulgas de vários continentes, inclusive no Brasil. Ela não vira pandemia porque hoje se conhece o agente, antibióticos comuns curam a doença se dados cedo, e o contágio entre pessoas só ocorre na forma pneumônica, com contatos próximos tratados preventivamente. Sobre o caso de Irkutsk, na Rússia, a causa da morte da funcionária ainda não estava confirmada nas informações disponíveis em 9 de outubro de 2026.123

Em 2 de outubro de 2026, em Irkutsk, na Sibéria, uma funcionária de 28 anos de um instituto antipeste morreu. Quase 200 pessoas que tiveram contato com ela entraram em observação, e a suspeita levantada foi a bactéria da peste. A Organização Mundial da Saúde (OMS) disse que ainda não conseguia fazer uma avaliação de risco; a Rússia chamou de falsa a informação sobre peste.45

Então a Peste Negra voltou? A resposta é mais estranha: ela nunca foi embora.

1O caso: fato e boato

O que é fato, segundo a imprensa internacional: Irkutsk fica perto do lago Baikal e abriga um dos institutos antipeste que a Rússia mantém há décadas só para vigiar a doença. Por volta de 2 de outubro, uma funcionária de 28 anos morreu. O jornal russo Izvestia, citado pela BBC, diz que 197 pessoas que tiveram contato com ela passaram a ser acompanhadas.4

Placas de gelo do lago Baikal ao entardecer
O lago Baikal, perto de Irkutsk, onde fica o instituto antipeste. Foto de 2016, ilustrativa.Sergey Pesterev, CC BY-SA 4.0 (Wikimedia Commons)

A partir daí as versões divergem. Uma autoridade local chegou a falar em peste; o órgão federal de saúde da Rússia passou a falar em "pneumonia de origem indeterminada". Em 7 de outubro, o diretor da OMS, Tedros Adhanom, disse não ter informação suficiente para uma avaliação completa de risco. Estados Unidos e União Europeia cobraram transparência, e a Rússia nega que haja um segundo caso.45 A OMS também pediu à Rússia detalhes sobre relatos da imprensa de uma segunda funcionária do instituto com pneumonia de causa indeterminada. No mesmo dia, o órgão federal de saúde russo disse que não há risco de epidemia: segundo ele, mais de 90% dos contatos já tinham terminado a observação e quase 5 mil exames não encontraram micro-organismo perigoso. O Kremlin chamou de falsa "a grande maioria" do que a imprensa publicou. Um site local, com fontes anônimas, afirmou que foi peste; até 9 de outubro, nenhuma autoridade confirmou.13

Circulam também boatos: um tubo de amostra quebrado no laboratório, uma expedição de campo, hospitais fechados. Até onde as fontes mostram, nada disso foi confirmado. A morte é fato; a causa, não.

2A bactéria e as três formas

A Yersinia pestis foi identificada em 1894, em Hong Kong, pelo médico Alexandre Yersin.6 "Peste Negra" é o apelido histórico da grande epidemia do século 14. A doença se chama peste, e a bactéria de hoje é a mesma daquela época.

Bactérias Yersinia pestis vistas ao microscópio eletrônico, em preto e branco
A bactéria Yersinia pestis ao microscópio eletrônico de varredura.CDC/NIAID · domínio público (Wikimedia Commons)

Segundo a OMS, ela pode atacar de três formas:

Por isso uma suspeita de peste pneumônica leva um país a vigiar duzentas pessoas.

Em outubro de 1347, doze galés de Gênova, vindas do mar Negro, entraram no porto de Messina, na Sicília. Segundo relatos da época, quase ninguém a bordo estava vivo; os que estavam, estavam doentes. As autoridades expulsaram os navios do porto, mas a doença já estava na cidade. Os moradores fugiram e levaram a peste pela ilha, no inverno ela já estava no continente e, em poucos anos, atravessou a Europa.7 Quando a onda passou, tinham morrido mais de 50 milhões de pessoas, segundo a OMS.1

Barco de pesca no estreito de Messina
O estreito de Messina hoje. Foi por esse mar que as galés chegaram à Sicília em 1347.Shifegu · CC0 (Wikimedia Commons)

4Por que ela nunca sumiu

A bactéria nunca precisou de gente. Ela vive em roedores selvagens e viaja nas pulgas. Esses lugares são os focos naturais, que existem em todos os continentes, menos na Oceania. Na Rússia, um deles fica na fronteira com a Mongólia, onde a bactéria circula entre marmotas, e é por isso que existem institutos antipeste na Sibéria.1

A gente entra por acidente. Em 2019, na Mongólia, um casal comeu carne e rim crus de marmota, acreditando que fazia bem à saúde, e os dois morreram de peste. A região ficou seis dias em quarentena, e a OMS informou que 118 pessoas que tiveram contato com eles foram isoladas e receberam antibiótico.8 Nos Estados Unidos, segundo o CDC, há em média sete casos por ano, a maioria no oeste, onde a bactéria circula entre cães-da-pradaria.3 A maioria dos casos humanos no mundo está no Congo e em Madagascar, onde há registros quase todo ano, numa temporada de setembro a abril.1

Marmota-tarbagan na Mongólia
Imagem ilustrativa: uma marmota-tarbagan, na Mongólia, um dos roedores selvagens que carregam a bactéria.iNaturalist · CC0 (Wikimedia Commons)

5Por que hoje não vira pandemia

  1. Hoje se sabe quem é o culpado. Em Messina, ninguém conhecia a bactéria nem a pulga, e os ratos viviam junto das pessoas, nas casas, nos navios e nos celeiros.
  2. O antibiótico. Segundo a OMS, antibióticos comuns curam a peste se dados cedo.1 Em 2017, Madagascar teve um surto de peste pneumônica que chegou à capital: de agosto a novembro, 2.348 casos confirmados, prováveis e suspeitos e 202 mortes (8,6%). Sem tratamento, a forma pneumônica é quase sempre fatal; com antibiótico, a proporção ficou abaixo de 9%, e o surto já estava caindo em novembro.9
  3. A corrente de contágio é curta. Quem teve contato próximo com um doente de peste pneumônica toma antibiótico por sete dias, mesmo sem sintomas.1 As duzentas pessoas em observação em Irkutsk não significam que a doença se espalha: é o protocolo.

Especialistas ouvidos pela BBC dizem que, mesmo se for peste, o risco de epidemia é baixo. O que mais preocupa é a falta de informação clara sobre o caso.4

6E no Brasil?

No fim do século 19, a peste fez de novo o que tinha feito em Messina: saiu da Ásia, passou por Hong Kong e, nos navios a vapor, foi de porto em porto pelo mundo. Chegou ao Brasil pelo porto de Santos, em outubro de 1899. Quem confirmou a bactéria nos ratos da cidade foi o médico Oswaldo Cruz, então com 27 anos, o que abriu caminho para o instituto que hoje é a Fiocruz.1011

Anos depois, no Rio de Janeiro, o governo passou a comprar ratos. Surgiu uma profissão, o ratoeiro, e houve até tentativa de fraude com rato falso de papel e cera. Segundo a Fiocruz, mais de 1,6 milhão de ratos saíram de circulação entre 1903 e 1907, e as mortes por peste na cidade despencaram.12

A bactéria ficou. Segundo o Ministério da Saúde, há focos naturais no Nordeste (Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, com extensão ao Piauí, Alagoas e Bahia), em Teresópolis (RJ) e em áreas de Minas Gerais. O caso suspeito deve ser notificado em até 24 horas, e o tratamento começa antes do resultado do exame. O último caso humano no Brasil foi em 2005, em Pedra Branca, no Ceará.2

Paisagem seca do sertão do Ceará
Imagem ilustrativa: o sertão do Ceará, uma das regiões com focos naturais de peste.Otávio Nogueira, CC BY 2.0 (Wikimedia Commons)

7A Peste Negra voltou?

Não: ela nunca foi embora. Continua nas pulgas e nos roedores do mato, na Sibéria, em Madagascar, no interior do Ceará. O que mudou foi o nosso lado: hoje se sabe o que ela é e por onde passa, e há um antibiótico comum que cura. Falta a resposta sobre Irkutsk: o que matou aquela jovem de 28 anos. Conte nos comentários do vídeo se você sabia que a peste tem foco no Brasil.

Anotação na margem: a peste não sumiu. Voltou para o mato.

8Mito ou fato?

O que se dizVeredito
A causa da morte em Irkutsk já foi confirmada como pesteMito
A peste bubônica passa facilmente de pessoa para pessoaMito
Antibióticos comuns curam a peste se dados cedoFato
A Peste Negra é causada por um vírusMito
Há focos naturais de peste no BrasilFato
Teste rápido

Qual forma da peste passa de uma pessoa para outra?

É a C, por partículas respiratórias.1

Aqui, mistério só continua mistério depois de conferido. Todo sábado tem curiosidade nova no canal.

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Fontes

  1. Organização Mundial da Saúde. Plague, fact sheet.
  2. Ministério da Saúde. Peste.
  3. CDC. Plague: maps and statistics.
  4. BBC News Brasil. Suspeita de peste na Rússia, 06/10/2026.
  5. UOL/BOL. OMS diz que não pode fazer uma avaliação de riscos sobre a suspeita de peste na Rússia, 07/10/2026.
  6. Institut Pasteur. Alexandre Yersin, the man who discovered the bacterium responsible for the plague (identificação do bacilo em Hong Kong, junho de 1894).
  7. Michael Platiensis (Michele da Piazza), relato sobre Messina em 1347, em tradução: Michael Platiensis on the Plague (1347), Universidade de Szeged.
  8. CBS News. Couple dies of bubonic plague after eating raw marmot meat in Mongolia, maio de 2019.
  9. OMS. Plague, Madagascar (Disease Outbreak News), 27/11/2017.
  10. Revista Pesquisa FAPESP. Guerra à peste.
  11. Nascimento, D. R. do. La llegada de la peste al Estado de São Paulo en 1899, Fiocruz/ARCA, Dynamis; Nascimento e Silva. A chegada da peste ao Brasil, análise de uma controvérsia, 1899, História, Ciências, Saúde – Manguinhos, 2013.
  12. Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz. The campaign against the bubonic plague.
  13. AFP, via The Korea Times. Russia warns of 'false' information as second plague case reported, 08/10/2026.

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