Por Que Será?
Ciência · Mente e comportamento

Por que temos medo de aranhas?

Num estudo, havia aranha em todas as 50 casas visitadas. Mesmo assim, uma perna peluda no canto da parede congela muita gente. O medo é de nascença ou aprendido?

Por Que Será? Publicado em 1 de outubro de 2026 Dados apurados até 1 de outubro de 2026 6 min de leitura ✓ 26 fontes conferidas
Por que temos medo de aranhas?

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Resposta rápida

Ninguém sabe ao certo. Bebês de 6 meses mostram sinais de alerta (a pupila dilata) diante de aranhas e cobras, mas alerta não é medo, e os próprios autores admitem que não dá para descartar experiência prévia.1 O que existe, segundo Drew Rakison, é uma predisposição para aprender rápido que aranha combina com perigo.2 Junte a isso o que a pessoa vê e ouve depois. E o medo se aprende e também se desaprende: a exposição gradual com um profissional é o tratamento com mais evidência.34

Num estudo que vasculhou 50 casas em Raleigh, nos Estados Unidos, havia aranha em todas.5 Gente que nunca viu nenhuma, morando com elas. E basta uma perna peluda aparecer no canto da parede para o corpo congelar.

Só que há um problema nessa história: de mais de 50 mil espécies de aranha, quase nenhuma oferece perigo de verdade. De onde vem então o medo? Vamos abrir a casa cômodo por cômodo.

1O quarto do bebê: nascemos com medo?

Em 2017, pesquisadores mostraram imagens a bebês de 6 meses: aranha ao lado de uma flor, cobra ao lado de um peixe, imagens do mesmo tamanho, cor e brilho. Mediram a pupila. Diante de aranhas e cobras, ela dilatou mais, um sinal de que o corpo ficou em alerta. No primeiro estudo foram 16 bebês, e no segundo, 32.1

Close extremo do olho de um bebê de 9 meses, com a cena refletida na pupila
Imagem ilustrativa: olho de um bebê de 9 meses em close.Basile Morin, CC BY-SA 4.0 (Wikimedia Commons)

Parece a resposta, mas os autores são cuidadosos: alerta não é medo. Publicou-se um comentário crítico ao estudo na própria revista.6 Drew Rakison, um dos pesquisadores mais citados do tema, diz que nenhum trabalho prova medo de nascença; o que existiria é uma predisposição do cérebro para aprender rápido que aranha combina com perigo.2

Algo que bagunça a teoria: em Skuon, no Camboja, tarântula frita é petisco de banca de rua, hábito que, segundo a Wikipédia, só ficou popular a partir dos anos 1990. Se o medo fosse de fábrica, isso não funcionaria assim.7 E há uma hipótese antiga do psicólogo Graham Davey (1994): na Europa, a aranha teria virado símbolo de nojo por ser ligada a doenças. É só hipótese.8

2A cozinha: quantas são perigosas?

O catálogo mundial de aranhas lista cerca de 53 mil espécies.9 Só dez gêneros constam na lista de picadas medicamente relevantes.10 No Brasil, o boletim do Ministério da Saúde fala em três gêneros, com cerca de 20 espécies de importância para a saúde pública:11

Armadeira vista em três quartos, erguendo as pernas da frente
A armadeira (Phoneutria nigriventer), um dos poucos gêneros de aranha que realmente preocupam no Brasil.Rodrigo Tetsuo Argenton, CC BY-SA 4.0 (Wikimedia Commons)

O resto das aranhas tem veneno, sim, mas fraco demais para preocupar.1112

3A sala: o que dizem os números

Entre 2017 e 2021, o Brasil notificou 168.420 acidentes com aranhas, a maior parte no Sul do país (53,5% dos casos). Os óbitos foram 92 em cinco anos: 37 pela aranha-marrom, 11 pela armadeira, 1 pela viúva-negra, 11 por "outras aranhas" e 32 sem identificação. Isso dá cerca de 1 morte a cada 1.800 notificações (conta nossa a partir do boletim).1113

O próprio boletim avisa que os dados podem mudar e que, na investigação, às vezes se atribui a morte ao agravo errado.11 Mesmo assim, a diferença é clara: muito medo, pouco perigo.

Cuidados que importam: olhar roupas e sapatos guardados, vedar frestas e, se houver picada, lavar o local, procurar um serviço de saúde e levar a aranha ou uma foto dela. Nunca cortar, sugar ou fazer torniquete.12

E o mito de que engolimos oito aranhas por ano dormindo? A estatística é falsa. A origem da história é contestada.14

4O quintal e o porão: por que elas entram?

Nas 50 casas, os pesquisadores encontraram mais de 10 mil artrópodes e pelo menos 579 formas diferentes, com aranhas em 100% delas, de 16 famílias. As aranhas-de-adega estavam em 84% das casas, e as de teia de canto, em todas.5 Os autores descrevem a casa como uma armadilha que filtra a fauna do quintal, e as aranhas estão ali atrás de outros insetos. O Butantan explica que não é falta de limpeza: elas preferem lugares fechados, com pouca luz e com insetos.15

A Austrália é um caso à parte. Lá vive a aranha-de-teia-em-funil de Sydney, em que só o macho é perigoso e só no verão, quando vagueia e às vezes cai em piscinas. Foram 13 mortes documentadas até a criação do antiveneno, em 1981, e nenhuma depois. Um macho consegue ficar mais de 30 horas debaixo d'água, preso a bolhas de ar nos pelos.16

Macho da aranha-de-teia-em-funil de Sydney numa calçada clara
A aranha-de-teia-em-funil de Sydney (Atrax robustus), macho: só ele é perigoso.dreworme, CC BY 4.0 (Wikimedia Commons)

5A chuva de aranhas que não caiu do céu

Campo de grama coberto de fios de seda de aranhas
Imagem ilustrativa de outro lugar: campo coberto de fios de seda depois de uma dispersão em massa de filhotes (ballooning).Stephen Michael Barnett, CC BY 2.0 (Wikimedia Commons)

Três casos que viraram manchete de pesadelo, sem o perigo que a manchete sugeria.

6O consultório e o cinema: o medo vendido

Nos Estados Unidos, o especialista Rick Vetter mostrou que se diagnostica picada de aranha-marrom até onde ela quase não existe: na Carolina do Sul, 478 picadas diagnosticadas em 1990 e uma única aranha documentada no estado.22

O medo também rende no cinema: o filme de terror Crawlers, distribuído pela Roadside Attractions e pela Saban Films, tem estreia marcada nos cinemas dos Estados Unidos para 16 de outubro de 2026.23 É ficção, e o medo que vende é real.

Fileiras de poltronas vermelhas de cinema vazias
Imagem ilustrativa: sala de cinema vazia.reynermedia, CC BY 2.0 (Wikimedia Commons)

7Como se desaprende

A fobia de aranha atinge, em geral, entre 2,7% e 6,1% das pessoas, dependendo do país e do estudo, e tem tratamento.2425

Num estudo de 1996, o psicólogo Lars-Göran Öst tratou 42 pacientes com uma única sessão de 3 horas de exposição gradual; depois de um ano, 95% do grupo pequeno seguia melhor.3 Em um estudo de 2002 com realidade virtual (cerca de quatro sessões de uma hora), 83% melhoraram, contra nenhum no grupo de espera; eram apenas 23 pessoas.4 Em 2009, outro estudo comparou uma sessão ao vivo de 3 horas (85,7% de mudança clínica logo depois e 72,7% no seguimento) com autoajuda pela internet (46,2% e 66,7%).26 A conclusão se repete: exposição gradual, acompanhada por um profissional. Se o medo atrapalha sua vida, procure um psicólogo.

Então, por que temos medo de aranhas? Provavelmente um pouco de cada coisa: um cérebro que presta atenção em bicho rastejante, mais o que a gente ouve, vê e sente depois. Conte nos comentários do vídeo qual foi a primeira vez que você sentiu medo de aranha.

Anotação na margem: o bebê ficou em alerta. Alerta não é medo.

8Mito ou fato?

O que se dizVeredito
Engolimos oito aranhas por ano enquanto dormimosMito
Aranha em casa é sinal de sujeiraMito
No Brasil, três gêneros de aranha têm importância para a saúde públicaFato
Bebês de 6 meses já têm medo de aranha, provadoMito
Houve uma "chuva de aranhas" no Paraná em 2013Em parte
Teste rápido

Quantos gêneros de aranha têm importância médica no Brasil, segundo o boletim do Ministério da Saúde?

É a C: armadeira, aranha-marrom e viúva-negra.11

Aqui, mistério só continua mistério depois de conferido. Todo sábado tem curiosidade nova no canal.

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Fontes

  1. Hoehl et al. Frontiers in Psychology, 2017. PMC5651927 e registro no Europe PMC.
  2. Carnegie Mellon University. Rakison: nature vs. nurture, 2015.
  3. Öst, 1996. PubMed 8936753.
  4. García-Palacios et al., 2002. PubMed 12296495.
  5. Bertone et al. PeerJ, 2016. PMC4727974; PeerJ blog.
  6. Comentário de Denzer, 2018. PMC5895771.
  7. Wikipedia. Fried spider.
  8. Davey. The "disgusting" spider, Society & Animals, 1994.
  9. World Spider Catalog. wsc.nmbe.ch.
  10. Wikipedia. List of medically significant spider bites.
  11. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico vol. 53 nº 31, 2022.
  12. Olhar Digital. O Instituto Butantan explica a diferença entre a aranha-marrom e a armadeira, 23/09/2026; Instituto Butantan. Aranhas em casa.
  13. APM. Ministério da Saúde analisa acidentes causados por aranhas no Brasil.
  14. Snopes. Do we swallow spiders in our sleep?
  15. Metrópoles. Aranhas em casa: o que fazer (citando o Butantan).
  16. Australian Museum. Funnel-web spiders; Wikipedia. Australian funnel-web spider.
  17. Gazeta do Povo. Santo Antônio da Platina registra chuva de aranhas.
  18. NBC News. Pouring down arachnids: Australia's spider rain explained.
  19. Smithsonian Magazine. No, it's not really raining spiders in Australia.
  20. CNN. Spider webs in Greek town, 2018.
  21. Greek City Times. 300-metre-long spider web covers beach; ABC News. Spiders cover Greek coastline in webs.
  22. Vetter. Causes of necrotic wounds other than brown recluse bites, UC Riverside.
  23. HorrorNews. Crawlers release date; HorrorBuzz. Crawlers.
  24. Wikipedia. Arachnophobia.
  25. Fobias específicas em 22 países (PMC).
  26. Andersson et al., 2009. PubMed 20183690.

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